sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Entenda o ETA e o separatismo basco

O grupo separatista basco ETA anunciou nesta quinta-feira (20) que abandonou definitivamente a luta armada, segundo comunicado divulgado pelo jornal "Gara", canal habitual dos comunicados do grupo: "O ETA acaba de anunciar que 'decidiu pelo fim definitivo de sua atividade armada'', disse o jornal basco, citando um comunicado do grupo.

O blog tenta explicar quem é o ETA e sua relação com o sentimento basco, que transpassa de longe o bom senso. Ainda, pra não fugir da sua tarefa, apresenta o Athletic Club Bilbao, clube da região que representa em seus estatutos o nacionalismo emanado. *Claro que não há implícita tampouco explícita relação do clube à organização terrorista. Ambos são apresentados em mesmo post apenas por se tratar de um tema tão recente, por serem da mesma região e por termos de falar sempre de futebol. (mais sobre o País Basco)*

ETA

O ETA, que matou mais de 850 pessoas em seus 50 anos de história a favor de um País Basco independente, no norte da Espanha e sudoeste da França. Ele estava enfraquecido pela repressão policial, com a detenção de vários de seus dirigentes mais importantes, e pelo aumento do apoio basco à saída política. O grupo também se encontrava havia vários meses sob a pressão de seu ilegalizado braço político, o Batasuna, para anunciar cessar-fogo.

A organização Euskadi Ta Askatasuna (basco para Pátria Basca e Liberdade), mais conhecida pela sigla ETA, é um grupo que pratica o terrorismo como meio de alcançar a independência da região do País Basco (Euskal Herria), de Espanha e França. A ETA possui ideologia separatista/independentista marxista-leninista e revolucionária.

Os integrantes da ETA são denominados “etarras”, um neologismo criado pela imprensa espanhola a partir do nome da organização e do sufixo basco com o qual se formam os gentílicos no idioma. Em basco a denominação é etakideak, plural de etakide (membro da ETA). Os membros e partidários do movimento frequentemente utilizam o termo gudariak, que significa guerreiros ou soldados.

Este grupo separatista reivindica a zona do nordeste da Espanha e do sudoeste da França, na região montanhosa junto aos Pirineus, virada para o Golfo de Biscaia, região denominada por Euskal Herria (País Basco). A ETA reivindica, em território espanhol, a região chamada Hegoalde ou País Basco do Sul, que é constituído por Álava, Biscaia, Guipúscoa e Navarra; também reivindica, em território francês, a região chamada Iparralde ou País Basco do Norte, que é constituído por Labour, Baixa Navarra e Soule. O governo espanhol estendeu o estatuto de Comunidade Autônoma Basca a três províncias da Espanha - Álava, Biscaia e Guipúscoa - da qual Navarra não faz parte, possuindo esta o estatuto da Comunidade Foral de Navarra.



Por concentrarem significativos investimentos ingleses e também por abrigarem uma classe empresarial empreendora e profundamente católica (um censo de 1970 apontavam o País Basco e Navarra, em toda a Espanha, como os maiores índices de freqüência às missas: 71,3%), os países bascos não conheceram à época do franquismo uma repressão tão violenta como a que se abateu sobre a Catalunha e Valência. Logo depois a Guerra Civil Espanhola, de 1936-1939, casas bancárias de Bilbao, de Santander e de Biscaia, expandiram-se para o restante da Espanha, enquanto empresas bascas dedicadas ao comercio de azeite passaram quase a monopoliza-lo em todo o país.

Todavia, essa relativa tolerância (exceção feita ao idioma basco, o euskara, perseguido sem descanso pelos nacionalistas espanhóis) para com os antigos anseios autonomistas dos bascos por parte do regime franquista, não fez com que eles desistissem em manter um governo basco no exílio, na vizinha França mais propriamente.

Em 1957, um grupo de estudantes bascos, militantes do PNV (Partido Nacional Vasco), que viajaram para lá, a titulo de estudos, depois de entrevistarem-se com José Maria Leizaola, chefe do governo Euzkadi (Basco) no exílio, com quem se desentenderam, decidiram-se pela opção armada. Ao contrário de Leizaola, que não simpatizava com a linha da ação violenta, os jovens bascos, convertidos ao marxismo, acreditavam que com o apoio do proletariado, da nova geração que formava no estertor do franquismo, e de um clero cada vez mais combativo, era possível retomar as bandeiras do separatismo, dando-lhe uma conotação pró-socialista.

Bartolomé Bennassar, ao analisar o caso basco (“Pais basco: génesis de una tragedia, in Historia de los españoles. Vol II, Cap. 12, 1989), identifica no desentendimento entre PNV e o ETA, um típico caso de conflito de gerações, onde os mais jovens rebelam-se contra o imobismo dos mais velhos, no caso, os integrantes do PVN (em sua grande maioria ex-veteranos da Guerra Civil de 1936-1939). Como não poderia deixar de acontecer, a nova geração estimulada pelos feitos revolucionários que então corriam o mundo (a Revolução Cubana ocorrera em janeiro de 1959), decidiu-se fundar, no dia 31 de julho de 1959, uma nova agremiação identificada com a luta armada revolucionária: o ETA (Euzkadi Ta Azkatasuna = Pátria basca e liberdade).

Para arrancar o movimento autonomista do imobilismo em que e encontrava, decidiram-se por ações espetaculares contra o regime franquista. Além de ampla panfletagem e distribuição de jornais clandestinos, no dia 18 de julho de 1961 praticaram um atentado a bomba contra um trem carregado de veteranos franquistas em San Sebastian, dando início a fase mais violenta da luta. Portanto, há mais de quarenta anos que os atentados fazem parte do cotidiano dos espanhóis. Recentemente, o famoso juiz Baltazar Gárzon retirou o registro do extremista Herri Batasuna, partido basco minoritário, por dar cobertura à facção Jarrai-Haika-Segi, que tem sido responsabilizado por inúmeros atentados.

O mais espetacular deles todos fora quando o ETA, ainda na época franquista, numa operação liderada por um tal de “Argala”, colocara no dia 20 de dezembro de 1973 uma poderosa bomba no carro do primeiro ministro Almirante Carreiro Blanco, em Madri, matando-o instantaneamente.


Athletic Club Bilbao e o orgulho basco. Alguns fatos:

Assim como ocorreu com a maioria dos clubes espanhóis, o Athletic Bilbao iniciou suas atividades por influência dos ingleses, que chegaram ao País Basco no fim do século XIX interessados no poder industrial da região. O crescimento do esporte e o interesse dos cidadãos pelo futebol fizeram com que o primeiro clube basco fosse criado em 1898. Era o Athletic Club, que tinha seu nome escrito com “th”, a grafia basca, em vez de “tl”, em espanhol . A opção pela escrita do nome já refletia a opção dos fundadores, que queriam um clube representando o orgulho do País Basco, que localiza-se próximo à fronteira da Espanha com a França e tem focos de luta para separar-se do restante do país.

O clube era o único da Primera División que não apresentava patrocínio em seu uniforme, nem mesmo de fabricante esportivo, pois é responsável pela sua própria marca "100% Athletic". Em julho de 2008, o Athletic passa a ser patrocinado pela petrolífera basca Petronar. Mas antes, durante a temporada 2004-05, em sua participacão na Copa da Uefa, seus uniformes carregavam a marca do Governo Basco, com a mensagem "Euskadi", que significa "Pátria Basca".

O Athletic é famoso por seu estatuto, que só permite jogadores bascos na equipe principal - podem até terem nascido fora da região geográfica do País Basco, contanto que tenham origens bascas ou que tenham sido criados na cultura basca. O embrião da regra surgiu em 1911 e era bem mais rígido: por um tempo, foram aceitos apenas jogadores da província de Biscaia, posteriormente passando a aceitar jogadores de províncias bascas vizinhas. Um novo abrandamento veio mais tarde, com o clube admitindo jogadores estrangeiros, desde que possuíssem origens bascas. Atualmente, o clube aceita estrangeiros sem raízes bascas, contanto que tenham sido educados na cultura basca. A concessão a estrangeiros permitiu que alguns forasteiros de sangue basco defendessem o time: o chileno Higinio Ortúzar (1939-1943), o filipino Ignacio Larrauri (1941-42), o brasileiro Vicente Biurrun (1986-1990), o venezuelano Fernando Amorebieta (desde 2005) e o mexicano Javier Iturriaga (2006-07). Raríssimas exceções foram feitas a Mario Bermejo, espanhol da Cantábria, presente na temporada 1997/98; e a Loren (1989-1991), de Castela e Leão. Há também os casos de Santiago Ezquerro e David López, que nasceram na província de La Rioja, por vezes considerada como basca, embora não por muitos. Mesmo com a região histórica do País Basco abrangendo também território da França, só um basco francês jogou no Athletic, Bixente Lizarazu, que esteve apenas em parte da temporada 1996/97. Em 2009, foi integrado o primeiro negro do time principal: Jonás Ramalho, filho de um angolano com uma basca.


Um comentário:

  1. Excelente texto. Muito informativo, e ainda assim bem integrado à proposta do blog.

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