terça-feira, 29 de novembro de 2016

Condá

Enquanto minha mãe vinha com o café quentinho, para tomarmos em frente à televisão, não consegui olhar nos olhos dela e segurar as lágrimas, me colocando obviamente no lugar deles... uma dor imensurável, senhores...  "(...) pintou o gol, Danilo! Pegou Danilo! Viva Danilo, foi o Condá! Foi o espírito de Condá que salvou essa aí! Danilo, o espírito de Condá estava com você. Meu Deus!"

Esse foi o grito de Deva Pascovicci, que me arrepiou enquanto assistia ao jogo na última semana. O mesmo Deva que gritava "Pra exxxxxxxxxxxxxplodiiiiiiiiiiiiir" quando o São Paulo marcava um gol no Morumbi e este pequeno torcedor assistia e vibrava em frente à televisão. Grito que se perdeu na memória há mais de 15 anos e voltou hoje imediatamente, ao pé do ouvido, quando soube da notícia.

Ao mesmo tempo, vem as palavras de Danilo ao fim da épica partida diante do San Lorenzo, dizendo que o sonho ainda não havia acabado. Que dor ao escrever isso aqui!

O apito final soou ali, quando ajoelhara em frente à bola e apontara seus dedos indicadores aos céus, como abrindo caminho para sua consagração e de seus colegas nessa passagem de vida.

Não Danilo... não Deva! O sonho ainda está em construção! Não vão... do seu pé se fez a realidade!

Depois da minha mãe, eu tentei esconder inutilmente o sentimento ao pegar o metrô com o amor da minha vida. Tampouco consegui encarar meus amigos de trabalho sem buscar o horizonte e esconder os olhos avermelhados, flagrados por alguns.

Um vazio que não sentia desde a morte de meu avô. Não entendia o porquê... caralho, você nem sabia quem eles eram! Acidentes acontecem...

Mas sabia como eram e o que faziam. Eu sei!

Eram uma família muito mais que um grupo qualquer. Apoiavam-se um no outro. Cresciam, trabalhavam, riam e evoluíam como atletas e seres humanos. Eram amigos. As viagens eram descontraídas e iam rumo aos sonhos que se concretizavam jogo a jogo. Eu sabia como vocês eram, porra!

Não só o grupo... a Chapecoense! Ela é o time pequeno que realizou o sonho de tantos pequenos desse Brasil afora. Conquistou nos campos, na raça e na paixão de sua torcida, o que todo pequeno almeja - sobretudo o respeito ante qualquer conquista. O alento apoiado na mística do espírito do Índio Condá!

Eu vivo isso, tudo isso de algum modo. E mais do que nunca preciso valorizar cada momento, cada vez mais. Tenho certeza que eles assim fizeram. E sua torcida permanecerá fazendo.

Da saga desde a quarta divisão, chegaram ao estágio mais alto de todos, no olimpo do campeões. Eles foram campeões da Copa Sulamericana de 2016!

Consigo ouvir o Deva narrando o jogo de volta aqui no Brasil. A final obviamente foi para os pênaltis e chegou ao 4 a 4 sem desperdícios.

A última cobrança do Nacional parando no espírito de Condá! Quer dizer... Danilo! Um gigante! Um paredão! Meu Deus!

E a batida final nos pés de Cleber Santana, o maestro. A tensão misturada à confiança. E a frieza do capitão... goleiro para um lado, bola para o outro. Solta o grito, Chape, é campeão!

A taça entregue por Deus e levantada por Cleber e seus amigos, sob o olhar do professor Caio Júnior.

Consegui esboçar um sorriso agora. O esporte consegue preencher alguns vazios no nosso peito, mesmo que ante a imaginação num cenário triste.

Pensei em escrever tanto coisa durante o dia inteiro. Busquei aguardar um equilíbrio maior da alma abalada pela partida destes guerreiros. Mas sai esse texto desconexo, mas que representa minha lembrança e homenagem a eles, que viveram para serem heróis. Força, Chape!



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