sábado, 15 de outubro de 2011

Sob a lua, num velho trapiche abandonado

"Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem. Antigamente, aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias marítimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar-oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite. Hoje a noite é alva em frente ao trapiche. É que na sua frente se estende agora o areal do cais do porto. Por baixo da ponte não há mais rumor de ondas, A areia invadiu tudo, fez o mar recuar de muitos metros. (...) não mais  cantou na velha ponte uma canção, um marinheiro nostálgico (...)"(p.19, Capitães da Areia, de Jorge Amado).


Jorge Amado, In: Cadernos de Literatura Brasileira, 1997 - "Com o tempo, fui acompanhando o agravamento da situação dos nossos meninos, mas na época em que lancei o romance eu não tinha consciência de que ali estava um problema que lamentavelmente se agravaria tanto."


Espero que com o contexto de posts anteriores e do nosso histórico, a ideia que quisemos passar fique clara. Espero comentários para seguir com este ensaio. Valeu!

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